Compreender, analisar e propor posturas para um eixo urbano historicizado e suas edificações demanda o cruzamento de entendimento teórico, aproximação com a prática e um caminho metodológico claro. Nesse sentido, foram criadas três grandes etapas de trabalho dispostas em ordem crescente de aglomeração de informações sobre cada uma das edificações da rua Barão do Rio Branco, sendo elas: (i) a pesquisa histórico-técnica, (ii) o levantamento e diagnóstico da materialidade presente e, por fim, (iii) a proposta de procedimentos terapêuticos.
Inicialmente, a pesquisa buscou em fichas técnicas, guias amarelas, alvarás, desenhos técnicos e fotografias de diferentes momentos, a caracterização de cada edificação presente na via, patrimonializada ou não. Esse processo deu origem a fichas catalográficas individuais baseadas em categorias presentes em trabalhos como de Hammerschmidt (2016)[1], Singeski, Serbake e Batista (2019)[2], Aquino e Chaves (2020)[3] e Aquino et al. (2022)[4], como nível de proteção, área, ano de construção, técnica construtiva, sistema estrutural, linguagem formal, além de usos atuais e anteriores.
Em seguida, o processo aproximou-se da materialidade das construções presentes na via, elencando materiais predominantes de cobertura, estrutura, vedações e esquadrias. Durante essa etapa, foram estabelecidas formas de danos predominante e secundário, severidade do dano, urgência e complexidade técnica da intervenção, estado geral de conservação da edificação e observações técnicas relevantes, conforme referências de fichas do Inventário de Conhecimento[5] do Plano Diretor do Patrimônio Cultural Edificado da cidade da Lapa, PR (IPHAN, 2010).
A partir da definição do estado de conservação e das formas de danos encontradas em cada edificação, foram propostos procedimentos terapêuticos gerais e específicos. Essa etapa apresenta os diferentes níveis de complexidade e de urgência de intervenção, combinados à consequente indicação de possíveis caminhos terapêuticos. Tais proposições se deram sobre diferentes naturezas de dano, atravessando a materialidade, composição da edificação e paisagem historicizada.
Dessa forma, aproximam-se proprietários, usuários e agentes do patrimônio a conceitos e ações relacionadas à manutenção, conservação e restauro de maneira responsável, acessível e tecnicamente respaldada[6], em um processo que visa preservação por meio da informação e da educação patrimonial. Ademais, ao tornar esse material acessível em um website[7], oportuniza-se a introdução da temática também ao público em geral, ao passo que a memória da cidade e o patrimônio cultural consistem em um bem comum e multigeracional[8].
Enfim, entende-se que o presente projeto cultural apresenta potentes instrumentos e metodologia para a leitura da histórica rua Barão do Rio Branco, combinando materialidade e composição, especificidades e conjunturas, técnicas e teoria. Assim, estimula-se uma conversa instrumentalizada, evidenciando as peculiaridades próprias à agência sobre uma obra de valor cultural ou inserida nesse contexto, entendendo os procedimentos propostos, não como uma fórmula a ser aplicada direta e acriticamente[9], mas como um conjunto de ferramentas que podem enriquecer futuras intervenções e, em última instância, o próprio conjunto histórico curitibano.
[1] Texto intitulado “Catalogação compartilhada de projetos arquitetônicos: uma parceria entre a Fundação Cultural de Curitiba, Arquivo Público Municipal de Curitiba e Universidade Federal do Paraná”, publicado na Revista Círculo dos Bandeirantes, n. 29, p.27-30, em 2016, de autoria de Filomena N. Hammerschmidt e equipe técnica integrada por Elizabeth Amorim de Castro e Marcelo Sutil, disponível em <https://periodicos.pucpr.br/ceb>.
[2] Artigo intitulado “Inventário do Uso, da Tipologia e da Ocupação dos Imóveis do Centro Histórico de Curitiba”, publicado no Caderno do Programa de Apoio à Iniciação Científica da FAE Centro Universitário, v. 20, n. 1, p.387-404, em 2019, de autoria de Natascha Moretti da Silva Singeski, Lourdes Maria Serbake e Fábio Domingos Batista, disponível em: <https://cadernopaic.fae.edu/cadernopaic/article/view/352>.
[3] Artigo intitulado “O Projeto Arquivo – Cidade, Patrimônio e Inclusão: A prática e a pesquisa como forma de valorização do bem patrimonial”, publicado na Revista Pixo, v. 5, p. 156-189, em 2020, de autoria de Emanuel Gonçalves Aquino e Rita Miréle Patron Chaves, disponível em <https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/pixo/article/view/20207>.
[4] Trabalho de Conclusão de Curso de pós-graduação latos sensu de especialização em Restauro e Patrimônio Histórico da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), intitulado “Eixo Barao Do Rio Branco: recuperação através da ocupação de seus vazios”, em 2022, de autoria de Emanuel Gonçalves Aquino, Jussimara Campelo, Clarissa Grassi, Filipe Leiria e Vinicius Zanluti.
[5] As categorias utilizadas foram baseadas no Inventário de Conhecimento do Plano Diretor do Patrimônio Cultural Edificado da cidade da Lapa, no estado do Paraná, 2010, documento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
[6] As proposições de procedimentos técnicos para cada dano observado na via foram baseadas em documentos técnicos de órgãos de preservação, como cadernos técnicos, manuais de conservação e portarias do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil (IPHAN), textos produzido pela Equipe Monumenta/IPHAN, normais da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), material elaborado pelo Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais (ICCROM), conceitos explicitados em documentos internacionais de preservação, referendados por Assembleia Geral do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), além de trabalhos científicos pertinentes. Tais documentos estão listados nas referências bibliográficas do presente projeto cultural.
[7] Website em questão: <www.retrospectodacidade.com>.
[8] Relações explicitadas na Carta de Veneza (1964) e no artigo intitulado “Notas sobre a Carta de Veneza” publicado nos Anais do Museu, v.18. n.2. p. 287-320, em 2010, de autoria de Beatriz Mugayar Kühl, disponível em: < https://revistas.usp.br/anaismp/article/view/5539/7069>.
[9] Frisa-se ainda que a implementação de qualquer proposta de intervenção sobre bens históricos edificados, seu entorno, conjunto e paisagem precisam ser respaldadas por projetos de restauro aprofundados para cada caso, produzidos por técnicos da área, conforme legislação, e implementados por mão-de-obra competente.

