
O Eixo Barão do Rio Branco: A Gênese da Curitiba Republicana e Moderna
A Rua Barão do Rio Branco, originalmente denominada Rua da Lyberdade, transcende a função de uma mera via urbana, consolidando-se como o eixo catalisador das transformações que levaram a Curitiba colonial às formas de uma capital moderna, republicana e melhor integrada às cadeias nacionais e internacionais de comércio e produção. Seu traçado, que liga o centro fundacional da cidade à antiga Estação Ferroviária, inaugurada em 1885, é o elemento central que define parte de sua relevância histórica e estrutural.

O Papel Estruturante da Ferrovia e do Eixo Cívico
A decisão de implantar a antiga Estação Ferroviária (que ligava Curitiba a Paranaguá e, posteriormente, a São Paulo e Rio de Janeiro) em 1885, foi o marco que impulsionou a reconfiguração da malha urbana da cidade, superando a primazia das antigas estradas coloniais e seus traçados orgânicos. A Rua Barão do Rio Branco foi concebida como o corredor de entrada da jovem capital paranaense, um boulevard centralizado à fachada principal da estação, que recebia visitantes e novos moradores.
Este eixo rapidamente se tornou um polo de efervescência cívica, hoteleira, comercial e de serviços. Na década de 1910, a paisagem, antes rural, já ostentava edificações de uso misto, hotéis e importantes sedes de poder, como a Câmara de Deputados, o Palácio do Governo e a Prefeitura. A influência do engenheiro italiano Ernesto Guaita é notável, sendo o responsável pela proposta de um arruamento ortogonal partindo da Rua Barão do Rio Branco – já em sua concepção incial em 1880 – e pelo projeto de edifícios emblemáticos como o Palácio da Liberdade (1880), sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), e o Palácio do Congresso (1896), que mais tarde se tornaria o Palácio Rio Branco, sede da Câmara Municipal.

Marcos Históricos e Urbanos
1880
Construção do Palácio da Liberdade (Governo do Estado) e proposta de novo arruamento por Ernesto Guaita.
1885
Inauguração da Estação de Trem, conectando Curitiba ao restante do país.
1887
Inauguração dos bondes tracionados por mulas, com garagem na Praça Eufrásio Correia.
1896
Inauguração do Palácio do Congresso (futuro Palácio Rio Branco).
1912
A Rua da Liberdade é renomeada para Rua Barão do Rio Branco, em homenagem ao diplomata Dr. José Maria da Silva Paranhos.
1912
Inauguração da primeira linha de bonde elétrico na cidade (ativa até 1952).
1944
Inauguração da loja Hermes Macedo, um marco comercial e de decoração natalina.
1963
Inauguração do Cine Vitória, o maior cinema da cidade na época.
1970
Início da circulação de ônibus BRT (Buss Rapid Transit) pela via.
1997
Inauguração do Shopping Estação no local da antiga Estação Ferroviária.
2019
Transformação do antigo quartel em cinema (Cine Passeio).

A Transformação da Identidade Curitibana
O impacto da Rua Barão do Rio Branco e da Estação Ferroviária vai além da infraestrutura, sendo o momento em que se desenham os contornos da Curitiba que conhecemos hoje. A chegada da ferrovia, somada ao ápice dos processos migratórios da época, moldou a cidade em diversos aspectos:
– Linguagem Arquitetônica: O eixo Barão do Rio Branco reflete a linguagem arquitetônica republicana e cívica, que se contrapunha ao estilo colonial.
– Perfil Étnico-Cultural: A rua e a estação foram o ponto de entrada para as correntes migratórias, influenciando o perfil e as referências étnico-culturais da capital.
– Técnicas Construtivas: As técnicas e a imagética da rua, pensadas por nomes ligados à implementação da ferrovia, tornaram-se um padrão para o desenvolvimento urbano.
Em suma, a rua, a estação, o perfil cultural e as técnicas construtivas da época são indissociáveis, formando uma unidade histórica que definiu a identidade de Curitiba.
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Decadência e Tentativas de Recuperação
A história da via é marcada por ciclos de adensamento, efervescência, decadência e recuperações. A partir da segunda metade do século XX, o eixo sofreu alterações significativas em sua função.
Em 1970, a rua passou a receber linhas expressas do sistema BRT, mas a demanda por dimensões maiores levou à transferência da via expressa para a Travessa da Lapa em 1992. Atualmente, nenhuma linha de ônibus utiliza a rua para tráfego.
A decadência do eixo se manifestou de forma aguda, com a Rua Riachuelo (próxima) atingindo 40% de imóveis desocupados em 1990, e a própria Barão do Rio Branco registrando cerca de 29% de imóveis desocupados ou abandonados em 2022.
Apesar disso, houve esforços de revitalização e reconhecimento histórico:
– 2001: O projeto “Cores da Cidade” promoveu a pintura das fachadas do comércio.
– 2011: Foi proposta a instalação de um bonde turístico no eixo Barão/Riachuelo, embora nunca tenha sido realizada.
– 2018: Foi criado um estudo para o tombamento municipal do Eixo Barão-Riachuelo, reconhecendo formalmente sua relevância histórica.
– 2019: O antigo quartel foi transformado no Cine Passeio, um novo polo cultural.
A Rua Barão do Rio Branco, portanto, é um testemunho vivo da história de Curitiba, um palimpsesto urbano que reflete as glórias da modernização e os desafios da preservação e revitalização de seu patrimônio central.




